Sabor livro

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Um “livro” escrito por “inteligência” artificial não é um livro, é uma coisa… sabor livro.

Inteligência artificial pode ser usada para fazer boa literatura? Como ferramenta, provavelmente sim. Isto está já acontecendo? Não sei dizer, mas chutaria que não. Mas é uma pergunta válida, e acho que um dia devemos até chegar lá. Admito abertamente que não vou sair por aí lendo um monte de coisas escritas por IA para tirar a prova dos nove. Eu sei o suficiente de como a coisa funciona para saber que o esforço literalmente não vale a pena.

O que posso fazer aqui é analisar as possibilidades. Mas, antes disso, vamos começar por alguns fatos:

1) Escrever, dizer-se escritor, dá status. Às vezes mais, às vezes menos, mas algum status, ou satisfação pessoal, sempre dá;

2) Como vários vídeos Instagram e Youtube afora mostram, existem estratégias para explorar os algoritmos de ofertas e de vendas, para fazer basicamente qualquer coisa vender bem. Independentemente disso, se essas estratégias de fato funcionam ou não, as pessoas ao longo da história sempre buscaram maneiras de ganhar dinheiro com o menor esforço possível. Vender um livro escrito por IA encaixa na descrição: baixo esforço e renda garantida, pelo menos é o que os vídeos e os cursos prometem.

Então, o que parece mais provável, o que combina mais com a realidade? Que as pessoas estão tentando explorar a IA para fazer boa literatura, para inovar, criar novas maneiras, novos estilos, quebrar paradigmas, em suma, abrir uma nova fronteira na arte e na literatura, ou que elas estão tentando um jeito fácil de conseguir alguma coisa para si mesmas, seja dinheiro ou uma massagem no ego?

A resposta é óbvia.

Claro que as duas coisas podem ser verdade ao mesmo tempo. Mas, mesmo se for o caso (e nada me garante que seja)… qual é a coisa que acontece(ria) mais? De novo, a resposta é óbvia.

Dada a maneira como é concebida, a IA não vai nunca criar nada de novo. Vai juntar um monte de peças já existentes de maneira (mais ou menos) diferente. Talvez, por mero acaso, de vez em quando saia disso algo de interessante. Vou perder meu tempo pagando para ver? De jeito nenhum.

Como ferramenta para fazer literatura, em algum momento, sem dúvida alguém vai encontrar um bom uso para ela. E será mérito desse alguém, da inteligência real, humana, que virá com alguma ideia original, com alguma maneira artisticamente inovadora de usá-la para criar e contar uma história.

Até lá, IA vai apenas produzir mais do mesmo. E ela não é original nem nisso. Hoje em dia temos um exército de escritores regurgitando as mesmas velhas coisas, criando uma infinidade de clones sem gosto, que no fim das contas vão alimentar os algoritmos para produzir… mais clones sem gosto.

Ah, alguém pode dizer, mas a inteligência artificial vai dar mais peso para aquilo que o público gosta mais. Ela vai entregar o que o público realmente quer.

Ótimo. A IA estará então reinventando as novelas da Globo, que entregam o que o público pede faz décadas.

Com isso não estou dizendo que IA deva ser proibida ou desestimulada, longe disso. É inútil lutar contra as marés do comportamento humano. Mas, do mesmo modo que as pessoas podem escolher aquilo que comem, aquilo que colocam para dentro do seu corpo, elas podem escolher aquilo que leem, aquilo que colocam dentro de sua cabeça.

Mas acho que não tenho muitas dúvidas sobre o que elas vão escolher. Talvez seja o futuro. Apenas beber algo sabor café, comer algo sabor chocolate, e ler algo sabor livro. E, quem sabe, ter relações pessoais com sabor humano.

Pensando bem, esse já é o presente.

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