Literatura e Cancelamento

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Acabo de ler uma notícia parecida com várias outras que já li antes: que uma determinada editora cancelou seu contrato com um determinado autor(a), porque essa pessoa foi acusada de determinado crime. E a editora é apenas mais um rato a abandonar o navio do autor-criminoso. Ninguém quer ser associado a ele, ou ela. Seu nome, agora, só será mencionado em peças acusatórias, do alto da estatura moral de todos os críticos de internet. Num passe de mágica, seus leitores, fãs e admiradores deixam de existir. É proibido gostar do autor-criminoso. É o fim. Ele, ou ela, acabou.

Percebam a sequência de eventos: a pessoa comete o crime, o autor(a) é cancelado.

A calma com que o mundo contemporâneo decreta o fim dos autores-pecadores me assombra. Parece-me que ninguém pergunta o óbvio: muda algo nas obras já publicadas? Mudam por acaso as palavras impressas, após serem revelados os crimes do autor? Os pecados do pai (autor) necessariamente recaem sobre o filho (obra)?

É curioso como o momento do crime, dentro da carreira artística/literária do autor(a), desempenha um papel central nesse julgamento. Se ele(a) escrever/compor sua obra depois de condenado(a), e, principalmente, depois de ter cumprido uma longa pena, as posições se invertem, e a obra recebe os ecos da virtude da redenção.

Obviamente que entendo o desconforto que o autor/pecador/criminoso causa. Não espero que o mundo simplesmente ignore o que essa pessoa fez, porém há mais nuances nessa questão do que pressupõe a resposta unidimensional da condenação e do cancelamento.

Claro, nosso mundo não está preocupado nem com o autor, nem com a obra. Está preocupado com a pessoa. Nosso mundo quer vingança. Crime e castigo. O pecador-criminoso não merece as luzes da ribalta. Que isso fique muito claro: o cancelamento de autores não é para proteger o público, não é nem ao menos para um propósito educativo-moral. É vingança pessoal, travestida de “justiça”.

Vejam, não tenho nenhum grande problema com a vingança. É algo profundamente humano. Não é lá muito nobre, mas em geral as atitudes humanas não o são. Essa é só mais uma.

O autor-pecador-criminoso merece ser objeto de vingança? Se culpado de fato, quase com certeza, sim, merece. Isso me interessa? Não.

Interessam-me suas obras.

O que fazemos com elas? O que fazemos com os livros, os quadros ou as músicas compostas por nossos autores-criminosos? Uma grande fogueira? Uma grande fogueira moral? Que risque o primeiro fósforo aquele que nunca pecou… Mas, hipocrisias do mundo à parte, a questão principal é: eu quero ler, ver ou ouvir algo que o autor-criminoso produziu? Mesmo que eu parta do pressuposto que essa pessoa é um completo monstro, a questão se mantém, se agrava até: eu quero ler, ver ou ouvir algo que o autor-monstro produziu?

No meu caso particular, a resposta é simples: sim. Eu quero, no mínimo, poder ler, ver ou ouvir a arte de um suposto, pretenso, possível ou de fato monstro.

Para deixar claro, vou usar o exemplo clássico de maldade do século XX: se estivéssemos falando de um romance escrito por Hitler, a resposta seria a mesma. Eu quero poder ler esse romance. Se estivéssemos falando de um romance escrito por um serial killer americano, eu passaria, mas tenho certeza que viraria um best-seller.

E é muito fácil justificar essa atitude. A primeira justificativa, bastante óbvia, soa quase como uma desculpa. Eu sempre posso dizer que tenho curiosidade sobre aquilo que uma mente tão __________ (insira seu adjetivo aqui) é capaz de produzir. Essa é uma justificativa válida, admito, mas ela não chega perto do cerne da questão. Fica muito longe dele, por sinal.

A pergunta chave, a pergunta crítica, é muito direta: será um pecador/criminoso/monstro capaz de produzir boa arte? Boa literatura, boa música, boa arte visual? Bem, meu caro leitor, deves estar já preparado ou preparada para a resposta: não tenho a menor dúvida que sim, mesmo um monstro é capaz de produzir boa arte. Claro, deve ser uma sensação surreal consumir essa arte. Deve chacoalhar nossos sentidos, questionar nossos julgamentos, desequilibrar nossa balança estético-moral. Tudo que eu espero de arte de boa qualidade. É quase desonesto, na verdade. A arte de um monstro é como a arte de um humano normal, só que com anabolizantes. Nosso choque moral é o anabolizante.

As perguntas morais, porém, permanecem. Eu não me interesso muito por elas, mas isso não significa que elas não possam ser feitas. Respingará, numa obra assinada por alguma dessas mãos, alguma gota do sangue que essas mesmas mãos derramaram? Talvez sim. Mas quem disse que isso é necessariamente ruim, do ponto de vista da obra de arte?

Mas, e se o sangue não respingar na obra? Será afinal possível que o autor-pecador/criminoso/monstro tenha algo em si para além das monstruosidades que cometeu? Não é tão comum ouvirmos hoje as pessoas dizerem que tal e tal coisa “não as definem”? Pois bem, por que os monstros não podem dizer o mesmo? “Seis milhões de mortos não me definem”. Por mais surreal que pareça, isso é verdade em algum nível. O ser humano de fato é uma colcha de retalhos de facetas incoerentes.

A literatura, em particular, é um palco onde essa colcha de retalhos tem um papel particularmente difícil de entender. Qualquer leitor de primeira viagem sabe que a palavra escrita tem vida própria, que um livro nunca fica preso nos confins daquilo que seu autor pensou para ele. Por mais que para alguns seja tentador saber o que afinal quis dizer o autor, no fim das contas cada um sempre sabe o que aquilo tudo quer dizer para ele mesmo. A tríade autor – livro – leitor não é só viva, ela é mais do que a soma de suas partes. É extremamente reducionista imaginar que essa relação só possa se dar se os autores forem selecionados de acordo com algum critério social ou moral, seja lá qual ele seja.

Eu poderia dizer que mesmo os pecadores e criminosos têm algo para nos ensinar, o que é gritantemente óbvio, mas não é só isso. Tudo não se resume a uma lição, em especial a uma lição de moral. Ao admitir que o autor-pecador é capaz de produzir arte ou literatura estamos simplesmente admitindo o óbvio: o autor-pecador é ainda humano. Mas isso ainda não é tudo.

Eu poderia também tentar tirar daqui uma lição simples, de que os livros e a literatura estão além do certo e do errado, além do bem e do mal. Mas eu desconfio das verdades convenientes, que soam auto-congratulatórias. A alternativa, por sua vez, parece-me tragicamente realista: A literatura e a arte talvez não sejam tão puras como achamos que elas são. É confortável acreditar que esses dois produtos humanos pairem acima da materialidade crua e da bestialidade selvagem: assim, de alguma forma todos nós, potenciais criadores de arte e literatura, carregaríamos essa faísca pretensamente divina. Mas, se mesmo essas duas musas trazem um eco inegável de algum pecado original, estamos condenados. Estamos condenados ao… humano. Somos todos feitos da mesma madeira torta, com a qual nada de reto pode ser construído.

E crucificar quantos autores-pecadores quisermos não irá mudar esse fato.

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