A arte de ser mal lido

A Lei Anti-Oruam: Muitos lados de uma moeda falsa
fevereiro 21, 2025

“Um artista dialoga com sua obra, um farsante dialoga com o público”. Essa frase vem sempre à minha mente quando estou lidando com a divulgação de meus livros. Claro que em alguns casos específicos ela pode soar exagerada, mas no fim das contas ela carrega um peso de verdade proporcional a quão desagradável ela pode soar para alguns. Eu “traduzi” essa frase, para refletir minha experiência, minha abordagem e meus valores para outra, talvez mais leve: “um livro tem que se defender sozinho”.

Um livro não precisa, ou não deve precisar, de seu autor explicando do que ele se trata, sobre o que ele fala, e o que ele na verdade quer dizer. O livro tem que fazer isso por conta própria. Claro, a linguagem humana não é estritamente objetiva, as palavras não são pequenas cápsulas imutáveis de sentido. As frases, os parágrafos e os capítulos correm por aí dizendo coisas diferentes para diferentes pessoas, quer queiramos, quer não. É precisamente nesse mundo ambíguo, fugidio e ardiloso que o livro vai precisar se defender.

Se eu juntar isso tudo, a conclusão parece óbvia: Devo escrever e ficar quieto. Solto meus livros como mensagens numa garrafa, e fico para trás, qual um solitário náufrago em pé, numa praia deserta, vendo suas palavras navegarem para longe, completamente fora de suas mãos.

Vou soltando minhas mensagens e minhas garrafas, e esperando para ver o que acontece. Até aí está tudo bem. Mas, durante esse processo, ocorre uma situação que é particularmente difícil de lidar: ver algum leitor fazer uma leitura completamente… incongruente dos meus textos.

As reticências no último parágrafo estão lá porque tive dificuldade em escolher a palavra certa, e “incongruente” ainda está longe de ser uma boa escolha. A primeira palavra que pensei foi “errada”, mas, oras, se não existe uma leitura “certa”, logo não existe uma “errada”. Isso soa muito bem para os ouvidos altamente subjetivos da estética contemporânea, mas… sendo sincero, isso não é verdade absoluta. Longe disso. A linguagem não é completamente objetiva, mas por outro lado ela não é completamente subjetiva também. Ou, para colocar em Português coloquial e extremamente comunicativo, às vezes você lê comentários de seus livros e fala com você mesmo: “que livro que essa pessoa pensa que leu?”.

O que você faz nessa hora? Meu lema de deixar o livro se defender sozinho diz que não devo fazer nada, e realmente acho que não devo interceder nunca. Mas a tentação de dizer algo, de gritar um “não!!” é fortíssima. Até hoje lembro de uma crítica que meu “Contos do Machado” recebeu, onde alguém disse algo sobre o livro que simplesmente não era factualmente verdade. Estava dentro de uma crítica mais ampla (com a qual não concordo), que por sua vez estava recheada de outras pequenas inverdades factuais. Sei onde a crítica está, e volta e meia tenho que lidar com o impulso de ir lá e objetar de alguma forma.

Todos os autores passam por isso. Com o passar do tempo você se acostuma, vai colecionando alguns casos curiosos, e a vida segue. Mas volta e meia alguma coisa te pega. A última que me pegou veio de uma pessoa querendo elogiar um conto meu. Era uma divulgação paga — para as pessoas impopulares nas redes, é isso ou a gaveta — e a pessoa estava fazendo seu trabalho. O que me doeu foi que me pareceu que ela seguiu uma fórmula para descrever meu conto, e não vejo como ele possa se encaixar nessa fórmula! A resenha inicia falando sobre a ambientação do texto, e o que ela diz simplesmente não está lá. A resenha segue me elogiando por coisas que não escrevi.

E eu sigo aqui, sem poder defender meu conto, que tem que se defender sozinho, segundo eu mesmo. E, mesmo que eu resolvesse criar um debate nesse caso específico, eu sem dúvida não seria capaz de “corrigir” todas as leituras “peculiares” que vão aparecer por aí.

No momento em que você torna público aquilo que escreve, você cria um pequeno monstro: seu alter ego hipotético, autor de todas as coisas que as pessoas acham que você escreveu. E é melhor se acostumar com o fato, porque irás ter que conviver com ele pelo resto de sua vida.

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