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#LivroLixo

“Contos do Machado” e a morte de um primo do Português
outubro 22, 2020
 
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A imagem desse post mostra uma pilha de livros (ao lado de um ser humano meramente ilustrativo, inserido para propósitos de escala), que têm entre si pelos menos três coisas em comum:

Primeiro, estão todos, no mínimo, num estado razoável de conservação, perfeitamente legíveis.

Segundo, são todos bons livros. Mais da metade de uma coleção de obras completas de Machado de Assis, três exemplares da coleção "Os Pensadores" (Platão, Aristóteles e Hegel), uma edição da Dover de "Looking Backward", de Edward Bellamy, uma edição da Longman de "The Invisible Man", de H.G. Wells, e um exemplar de "Kafka on the Shore", de Haruki Murakami.

Além disto, eu achei todos no lixo.

Sim, no lixo. Não separados num canto para doação, não numa caixa debaixo de uma escada. No LIXO. Junto com sacos de lixo, com restos de comida, excrementos de cachorro e o que mais um ser humano é capaz de produzir para jogar fora. Encontrei-os em três oportunidades diferentes. Em outras duas vezes encontrei livros no lixo, mas não pude salvá-los. Em uma delas eu não tinha como carregá-los, e na outra eles estavam sujos o suficiente para acionar meu instinto de auto-preservação, ou de higiene (e ambos não são lá essas coisas). Cinco eventos. Não é coincidência.

Que o mundo mudou eu sei. Que existem outras formas de transmitir e guardar informação, eu também sei. Você pode pensar que, ei, talvez tenha edições demais de Platão no mundo. Talvez já tenham impresso mais de 7 bilhões de Platões (foi só para rimar), e está na hora de começar a se livrar de alguns deles. Talvez o mundo realmente tenha livros demais.

Bem, e por que diabos as pessoas são tão burras?

Eu escrevo, raios! Adoro a ideia de publicar um livro. Mas é preciso saber que o lixo é uma das possibilidades para meus escritos. Isto sem dúvida dá outra perspectiva a ideia de escrever. Infelizmente ainda não encontrei no lixo nenhum livro de meu autor predileto, por que aí eu teria o conforto de pensar que ficarei na melhor companhia possível, com minhas linhas decompondo-se na escura podridão do dejeto humano doméstico.

Não consigo parar de pensar no processo que leva alguém a jogar livros no lixo. Talvez tenha uma boa explicação, talvez alguém apontou uma arma para a cabeça do cidadão e disse: "joga no lixo, playboy!".

Que existem livros que são um lixo, disso não discordo. Merecem ser jogados no lixo? Talvez. No lixo da história, sem dúvida. Mas jogar um livro, um livro de verdade, no lixo, é algo que está num patamar que não consigo, ou melhor, não quero chegar. Sei muito bem que editoras frequentemente acabam por dar fim a muitos e muitos exemplares de livros encalhados. Mas isto eu ainda consigo encarar como uma faceta desagradável do processo industrial. Esses livros, esses da foto, não. Esses alguém pegou na mão e resolveu jogar no lixo, como um panfleto de propaganda que você recebe numa esquina e já esqueceu na outra.

Eu fico na dúvida se prefiro saber que um livro foi queimado, ou que foi jogado no lixo. O fogo tem pelo menos uma dose de dignidade. Queimar livros, claro, reflete em geral ódio e ignorância. Jogar livros no lixo, em princípio, só ignorância. Mas ignorância dificilmente vem sozinha.

É, foi uma longa jornada. Começou com rabiscos em pedra, papiro, pergaminhos... Passou por um cara chamado Gutenberg, sabia das coisas, o rapaz. Mas vai acabar no lixo.

Não, vão dizer alguns... é a evolução, as ideias estão mais rápidas, a linguagem evolui, a dinâmica é outra. A dinâmica é muito mais... hmmmm, dinâmica. Ah, é? Puxa vida. Então é a isto que tenho que aspirar agora, por milhares de olhos ansiosos e dedos apressados esperando para multiplicar meus últimos tweets?

Nah. Prefiro o lixo.

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